Somos Nós: João Borges e Lídia Paulo

"Quando ouvi as primeiras notícias de que, por ser uma virose iniciada na China e estarmos tão longe, não teríamos de temer, fiquei em pânico, por tal atrocidade de afirmação, vinda da Directora-Geral da Saúde, pois que, nos dias que correm, qualquer um de nós pode dar a volta ao mundo em dois ou três dias... Quinze dias depois, estávamos em epidemia generalizada e, em mais quinze dias, pandemia confirmada. O meu pânico desvanecera-se, porque iríamos ficar em casa, diminuindo o risco de contágio.

É limitador? Sim, é! Ficamos tristes por não andarmos à vontade? Sim, ficamos! Mas é imensamente encorajador termos esperança de continuarmos por cá, embora sem nos vermos, sem nos tocarmos, mas continuarmos por cá e, se tudo correr bem, os nossos mais queridos também!

Não acho que seja alguma “prova”, nem um desafio, para mudarmos os nossos comportamentos conscienciais, quanto ao Mundo, quanto ao ambiente, quanto aos outros; infelizmente, o animal humano não passará disso mesmo, de ser um animal e, por isso, permanecerá preocupado com a sua sobrevivência... pena é que se preocupe apenas com a sua própria sobrevivência e imediata, não deixando, aos vindouros, nem aos restantes que cá andam, um melhor caminho do que aquele que cada um encontrou...

E isso, sim, deixa-me triste, desolado, desanimado.

Não posso ir à praia? Pois, não posso, mas, daqui a cinquenta anos, os meus netos (se nascerem), podem nem chegar a saber o que é uma praia.

Mas, calhando, este discurso já é resultado do confinamento e não faça sentido nenhum." - João Borges

"Isolamento... eu sinto. Como muitos outros, enganei o verdadeiro isolamento, de cada vez que tinha de sair de casa, mas, ainda assim, sentia-me presa. A minha família, pelo contrário, cumpriu todas as regras, por um longo tempo. A falta de contacto social tem afectado todos nós, de formas diferentes. A nossa paciência é testada e desafiada todos os dias. As nossas dúvidas levantam-se; questionamos tudo, duplamente.

Não recuperaremos este tempo e não esqueceremos. Alguns de nós aprendemos: aprendemos a amar mais, a amar os outros e a nós próprios. É um tempo de reflexão, é limitado, partiremos um dia e, esperançosamente, felizes e sem remorsos. A minha necessidade é a felicidade da minha família... prosperarei ao ver os seus risos, as suas lágrimas, o serem atenciosos e, mais ainda, a sua sociabilização.

Por fim, necessito de um abraço, diariamente; esta pandemia mostrou-me o quanto tomávamos isso como garantido.

Abraços e beijos." - Lidia Paulo

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