Festival Impulso, dia 3 (Caldas da Rainha, 2019/05/25)

Chegávamos ao terceiro dia.

Entre a ESAD, o CCC, a Igreja do Espírito Santo e a antiga fábrica Bordalo Pinheiro, a malta movimentava-se bem-disposta durante o dia. Que bom que é termos um acontecimento destes na bela cidade das Caldas!

A verdade é que este Impulso acabou por ser o primeiro festival dos filhos de muitos caldenses e de muitos dos artistas que passaram pelo palco e isso é incrível! Os UBU, mais uns filhos da terra, foram alguns dos que tiveram esse privilégio. Muitos dos membros desta banda tinham os seus filhos entre o publico a aplaudir e nós sabemos o quanto isso lhes era importante!

Os First Breath After Coma tiveram direito ao primeiro encore da noite. A banda de Leiria também veio ao Impulso mostrar o seu terceiro álbum “Nu” e há muito que queriam tocar nesta cidade.

E eis que chegava Ângela Polícia. Ângela Polícia que na verdade é Fernando Fernandes, um rapaz de Braga que entrou na ESAD em 2006/2007 no curso de Som e Imagem como terceira opção e que em palco acabou por confessar que foi o melhor que lhe aconteceu. Em palco ouvimos hip-hop, noise-hop, punk, electrónica, dub e outras tantas outras formas que é impossível catalogar a música deste projecto. A presença, letras e voz de Fernando tornaram este concerto num dos momentos do festival. Houve ainda tempo para uma homenagem a Razat, um DJ e produtor que nos deixou no ano passado de quem Fernando era amigo e com quem tanto aprendeu.

Batida DJ começou de uma forma original, com Pedro Coquenão a discursar sobre vários temas que fizeram com que o publico parasse em vez de ir buscar uma cerveja, curiosos com o que iria sair dali. Relembrou e perguntou quem tinha estado num espetáculo que deu no CCC há alguns anos em que o palco estava ao mesmo nível que o publico, como sempre devia ser e que ainda hoje recorda por ter sido tão especial. Ouviram-se algumas vozes confirmando que foi de facto memorável. Muito! Começou o set com a sua música mais conhecida, levando toda a gente a começar uma festa cheia de ritmos, batidas e acima de tudo a tentativa de mostrar que o conceito de DJ tem de ser algo muito para além do passador de discos.

A noite terminou com mais uma enchente de publico para ver Linda Martini. A banda tocou músicas de todos os seus álbuns e mostrou por que razão é uma das bandas mais queridas pelo publico português. Malhas como Amor Combate, 100 Metros Sereia, Volta ou Panteão foram cantadas em coro pelo publico juntamente com Cláudia Guerreiro, Pedro Geraldes, André Henriques, Hélio Morais. No encore tocaram uma versão de “Frágil” de Jorge Palma e Dá-me a tua Melhor Faca. A banda que “roubou” o nome a uma estudante italiana de Erasmus não desiludiu.

Para os mais resistentes ainda houve clubbing com Moonjuice, Colónia Calúnia, e Capital Decay Showcase. E assim terminava o festival.

Que este tenha sido o segundo ano do resto de uma vida bem longa!

Terminamos com uma frase de Fernando Fernandes “Temos de apoiar o Impulso, se não fizermos por nós, ninguém fará”. Assim seja.

Até para o ano! Por favor!

Texto por Patrícia Rijo
Foto-reportagem para a Undertow.

Festival Impulso, dia 2 (Caldas da Rainha, 2019/05/24)

Segundo dia.

Começamos com mais Doclisboa na ESAD.CR e um documentário sobre os 15 anos do curso de Som e Imagem no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha. Na belíssima Igreja do Espírito Santo, Violeta Azevedo cantava. Às 18h já uma multidão bem jeitosa se juntava na antiga Fábrica Bordalo Pinheiro para ver Sallim e Iguana Garcia.

A verdade é que entre as 14h e as 2.30h não há intervalos, há concertos a começar a toda a hora, isto é a sério – não é para meninos!

Às 20h começavam os concertos no Parque e hoje os primeiros acordes eram dados pela doce filha da terra Nádia Schilling. O concerto com a própria na voz e guitarra teve momentos de intimismo folk, mas também fomos agraciados por uma sonoridade eléctrica intensa, que muito se deve aos músicos que a acompanham: o baixista João Hasselberg (Luísa Sobral, Tiago Bettencourt, Janeiro, entre outros), o guitarrista Pedro Branco (vencedor do Prémio Revelação Jazz 2017) e o baterista Bruno Pedroso (Heróis do Mar, Mler if Dada, Salvador Sobral). Ainda tivemos direito a um convidado especial, Adriano Cintra (ex Cansei de ser Sexy) e honestamente não conseguimos ver uma melhor forma de começar os concertos da noite. Os Beautify Junkyards trouxeram-nos experimentalismo e sonoridades ambientais e cósmicas umas vezes em português e outras em inglês, dando um novo significado à palavra folk.

Era a altura do post-rock instrumental dos Riding Pânico. A banda já anda por aí há uns anos valentes e durante esse percurso ganhou a fama de banda de culto. Aqui mostrou porque é merecedora desse estatuto.

A 15 de Março, os Sensible Soccers lançaram o seu terceiro álbum “Aurora” e vieram ao Impulso mostrá-lo. Vila do Conde, Barcelos e Braga desceram às Caldas para nos darem um concerto em crescendo, começou calmo e terminou numa pista de dança gigante que soube a pouco.

E eis que chega Conan Osíris, ou melhor Tiago Miranda. A tenda rebentava pelas costuras com tanta gente curiosa para ver o fenómeno. Em palco apenas Conan, o seu bailarino João Moreira, um álbum, alguns singles e muita humildade. Muito comunicativo, falou muito entre cada música, sempre com um grande sentido de humor. Logo no início meteu-se com os fotógrafos que após várias músicas continuavam a sacar chapas, perguntando “Mas vocês ainda não tiraram fotografias suficientes?”. Falou do tempo em que passou na ESAD, nomeadamente de um Caldas Late Night em que fez um vídeo a cantar o QMD. Apresentou-se com uma t-shirt escrita em árabe… O publico ficou rendido desde os primeiros segundos em que se ouviu a voz do artista. Muitos cantavam em uníssono as suas letras e todos quase sem excepção dançaram como se não houvesse amanhã. Houve uma invasão de palco, a pedido do cantor durante a música Celulite. Na música Amália, o bailarino desapareceu e cedeu o palco a Conan que o usou de forma intimista. Brincaram ambos com o encore que aconteceu mesmo e terminaram o concerto de forma apoteótica com o QMD. Foi incrível o que se viveu ali. Épico mesmo. Uma tenda gigante rendida a dois tipos que não brincam em serviço e sabem muito bem o que andam a fazer. Respect.

Allen Halloween e a sua ODC Gang teve as honras de fechar a noite no Parque e havia muita gente à espera dele. O rapper da linha de Sintra trouxe o seu rap de letras directas e temas crus às Caldas e fez-se acompanhar pelo seu publico fiel, como ficou provado por uma das conversas em palco em que um dos elementos da sua crew olhando para o publico disse “Allen, aquele rapaz está em todos os nossos concertos” ao que o mesmo respondeu com humor “Obrigado! Se eu jogasse noutra equipa, levava-te comigo para casa”. Brincou ainda com o símbolo das Caldas e perguntou como era possível que as feministas ainda não tivessem respondido a isso... Hip hop à moda antiga, brutal por vezes, genuíno e com muitos seguidores fechava a noite aqui.

No caminho entre o parque e o clubbing para ainda ver A Lake by the Moon, Pedro Mafama e DJ Marfox, ouvimos alguém a dizer “Parecia-me o cheiro a alecrim, mas acho que era ganza”. Rimos e dissemos adiante!

Texto por Patrícia Rijo
Foto-reportagem para a Undertow.