A Voz fotográfica

A fotografia é uma arte extremamente dependente da tecnologia ao nosso dispor. Temos objectivas do mais moderno, temos câmaras capazes de detectar olhos de seres humanos ou de animais e focar neles em milésimos de segundo, temos estabilizadores, temos microfones, temos tripés, mochilas, sacos, acessórios mil. É fácil cair na tentação consumista e correr atrás do que é mais recente na expectativa de que a nossa arte melhore por termos o melhor equipamento no mercado.

E é um facto. O bom equipamento ajuda. Facilita. Mas não substitui o lado humano. Muitas vezes esquecemo-nos do que nos faz fotografar. Porque é que pegamos na câmara fotográfica e a apontamos a determinado sujeito. Esquecemo-nos que a fotografia, como qualquer arte, deve ter algo a dizer. E o que temos a dizer não tem de ser nada incrível ou capaz de mudar o mundo. Um bom começo é pensar em fotografar uma coisa, um evento, uma pessoa, porque sentimos uma ligação emocional. Podemos querer expressar o nosso amor por outra pessoa, ou por um lugar e registar isso fotograficamente, podemos expressar o nosso gosto por uma cor, pela beleza, pela qualidade inestética de algo. Mas precisamos de ter algo a dizer. De ter um ponto de partida.

Há um perigo muito real de se cair na procura pelo mais cool e hip do momento. Aquela técnica de Photoshop que faz tudo parecer hiper-detalhado. Aquela que tira as rugas todas e nos põe mais jovens (quem me dera que na vida real fosse assim!). Aquela objectiva fisheye, ou aquela que desfoca tudo menos uns milímetros de profundidade de campo. Não há nada de errado com utilizarmos estas ferramentas, nem com utilizá-las com regularidade. Mas acredito que deve haver uma ligação entre as ferramentas que usamos e o que queremos dizer. E sim, uma objectiva ou uma técnica de Photoshop, ou uma peça nova de equipamento não é mais que uma ferramenta. E as ferramentas, quaisquer que sejam devem estar sempre ao serviço da nossa voz fotográfica, e não o contrário.

Porque é que fotografámos isto? Porque é que fotografámos com aquela definição específica na câmara. Com aquela objectiva e não com a outra. Porque é que tratámos a fotografia desta maneira e não daquela. Porque é que levámos este filtro e não aquele connosco. Tudo isto é importante, claro, mas só no que toca ao colocarmos estas ferramentas a servir uma voz, uma ideia, um sentimento que vem de nós e só de nós, e que nos é único.

Eu sei que é fácil dizer isto, quando pessoalmente procuro ter sempre bom equipamento fotográfico quer a nível de câmaras como a nível de objectivas. Que obceco com aquele look específico. Tudo isto ajuda o meu trabalho. Na fotografia de concerto, que desenvolvo há alguns anos, é necessário equipamento bom para fazer boas imagens. Claro que há alternativas baratas, mas a qualidade de imagem sofre. Não há muita volta a dar quanto a isto. É um meio que exige muito de nós e do nosso material. Mas mantenho que para cultivar uma voz fotográfica na vasta maioria dos outros temas disponíveis para fotografar não é necessário destruirmos a conta bancária. E mantenho que é mais importante para o desenvolvimento da nossa linguagem o cultivar de uma voz fotográfica, sustentada por ideias e sentimentos que queremos expressar visualmente, que uma mochila recheada do que é mais recente e caro.

Da próxima vez que estiverem a usar o Instagram, olhem com atenção para as imagens que estão à vossa frente. Vejam com calma, tentem sentir o que a imagem tem como objectivo transmitir.

O simples “este foi o meu almoço”, a fotografia de paisagem daquela praia lindíssima, a fotografia de uma mulher ou de um homem bonitos, a fotografia super-stylish de um carro desportivo, a fotografia de um guitarrista levado pela emoção. Todas estas imagens podem transmitir-nos algo, e todas elas podem ser mais ou menos eficientes em transportar até nós essa emoção, se o seu criador estiver ligado emocionalmente a elas no momento da sua criação. Não importa a complexidade da ideia por trás da fotografia, desde que lá esteja, de facto, uma ideia. E sim, em muitos casos não vamos conseguir encontrar grande intencionalidade e valor artístico no que vemos, mas se nos desligamos emocionalmente por completo, desligamo-nos da essência mais importante da arte fotográfica.

Antes de premirmos o botão e dispararmos, devemos primeiro pensar no porquê, e só depois no como. Sempre.